Encontrei Alfred Adler por acaso, numa livraria no Brasil, sem qualquer intenção de comprar o que quer que fosse. No Brasil, o livro chama-se A Coragem de Ser Detestado; em Portugal, tem como título A Coragem de Não Agradar. Li-o em duas noites. Só mais tarde me ocorreu pensar no caminho que aquele livro tinha percorrido até chegar às minhas mãos.
Vale a pena seguir esse caminho… Um psiquiatra austríaco, a escrever em alemão no início do século XX. Décadas mais tarde, dois autores japoneses pegam no seu pensamento e reinventam-no em forma de diálogo. Uma tradução para inglês. Outra para português do Brasil. E, no fim desta cadeia, um português a viver nos Estados Unidos, que trabalha e escreve quase sempre em inglês, tira esse livro de uma prateleira no Brasil e, a partir dele, escreve alguns textos sobre o potencial uso do pensamento de Adler no ensino da engenharia de software na era da IA.
Cinco línguas. E a ideia chegou inteira!?
A pergunta que isso me deixou
Se uma ideia consegue atravessar cinco línguas e três continentes, porque é que na minha própria área de investigação não conseguimos atravessar uma fronteira?
Trabalho há vinte e cinco anos em confiabilidade ou dependabilidade, conforme o lugar ou grupo de investigação. É uma área com uma literatura sólida, definições cuidadosas, uma taxonomia de referência que toda a gente cita. E, apesar disso, a comunidade lusófona nunca chegou a acordo sobre como dizer as coisas mais básicas.
A palavra inglesa fault traduz-se, conforme quem escreve, como falha, falta, defeito ou avaria. E “falha”, por sua vez, tanto pode designar o defeito latente dentro de um componente como o colapso visível do sistema inteiro, que em inglês são duas coisas distintas com dois nomes distintos. Um estudante que leia dois artigos em português sobre o mesmo assunto pode sair mais confuso do que entrou.
Há um caso ainda mais incómodo. O inglês distingue safety de security: uma coisa é evitar que um sistema mate alguém, outra é impedir que um atacante entre. São duas preocupações distintas, com literaturas distintas, e o português tem uma palavra só: segurança. Quem escreve em português é obrigado a explicar de cada vez de que segurança está a falar, ou a deixar a ambiguidade aberta e esperar que o leitor adivinhe pelo contexto.
O que surpreende, quando se olha para isto com atenção, é que a divisão não é entre Portugal e o Brasil. Não é geográfica. É entre grupos, dentro do mesmo país, que seguiram trabalhos seminais diferentes ou herdaram a terminologia de um orientador. A língua dividiu-se por linhagem académica.
Se a palavra muda o pensamento
Aqui está o que me tem ocupado desde então. “Defeito” sugere algo intrínseco, uma imperfeição que está lá, dentro da coisa, mesmo quando ninguém a vê. “Falha” sugere um acontecimento, algo que se dá, que acontece num momento. São duas intuições diferentes sobre a mesma realidade técnica.
Cada grupo passou décadas a ensinar a sua intuição aos seus alunos. Será que quem aprendeu a dizer “defeito” imagina o problema de forma diferente de quem aprendeu a dizer “falha”? Não sei responder. Mas custa-me acreditar que a escolha seja completamente inócua.
Há um exemplo que me diverte e me preocupa em igual medida. A palavra inglesa eventually significa “por fim”, “acabando por acontecer”. Em sistemas distribuídos tem um sentido ainda mais preciso: dentro de um intervalo de tempo finito, ainda que não se saiba qual. Traduzida à letra para “eventualmente”, passa a significar quase o contrário, algo que talvez aconteça. Uma palavra que garante e uma palavra que duvida. É a distância entre um teorema e uma possibilidade, e cabe inteira num falso amigo.
O que a língua faz bem
Vale a pena dizer que nem tudo aqui é problema de coordenação. A língua também resolve problemas sozinha, e depressa.
Saudade não se traduz, e ninguém tenta. É uma palavra que o inglês não tem e à qual se limita a dar a volta com aproximações. Mas o inverso também acontece: dependability também não tinha equivalente em português, e a comunidade acabou por inventar “dependabilidade”, um neologismo em português para traduzir um neologismo em inglês. As duas línguas têm buracos, apenas em sítios diferentes.
E há a absorção pura e simples. Enquanto discutimos há décadas como traduzir fault, a língua já engoliu crashar, deletar, escanear, sem consultar ninguém e sem pedir licença. A palavra crash está hoje tão integrada que já quase não precisa de itálico. É curioso que o processo informal seja tão mais rápido e tão mais eficaz do que o formal. Ninguém convocou uma comissão para decidir se se podia dizer crashar. Simplesmente passou a dizer-se.
Não sei responder a isto
Se uma única palavra pode inclinar a forma como um investigador imagina um problema, o que é que faz uma língua inteira?
O português tem um futuro do conjuntivo, uma forma verbal dedicada ao que ainda não aconteceu mas pode vir a acontecer, que quase nenhuma outra língua europeia possui. “Quando eu chegar.” “Se ele quiser.” Uma gramática inteira reservada para aquilo que ainda está em aberto. Distingue “tu” de “você”, e o inglês tem um “you” só, que não distingue nada. Ao mudar para os EUA, passei a ser tratado por um pronome que apaga uma diferença que a minha língua considera importante, e ninguém à minha volta sente que falte alguma coisa.
E convém não esquecer que o português não é só meu, nem é só de Portugal e do Brasil. É de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, de Timor. Uma língua com muito mais falantes fora da Europa do que dentro dela. A minha variante é apenas uma entre várias, e nem sequer é a mais falada.
Escrevo ciência em inglês há vinte e cinco anos. Não sei dizer se penso de outra maneira quando o faço. Não sei sequer como é que saberia.
Escrevi esta reflexão em português porque a ideia que o começou me chegou em português. Não no meu Português, mas em português. Talvez seja esse o ponto.